Da festa junina que nunca existiu
Parte a casca dos ovos, bolas alaranjadas caem sobre o monte fofo de farinha... O sol doura tudo à sua volta. Lembra-se com vívida nitidez da época em que sua mãe lhe ensinara a preparar bolos, com habilidade de quem foi agraciada com a doce incumbência de não precisar ocupar os pensamentos com nada além do vaivém da colher. Vaivém dia. Vaivém noite. Os olhos perdidos pairam no ar, longes, tediosamente constantes, sabiamente contentados. Contentados, e não contentes. Contentado que vem de dentro, por esforço e determinação concentrada.
Por sua vez, a filha foi avessa às tradições arcaicas de um país arcaico. Colou bandeirinhas algumas vezes por pura obrigação. E teve que dançar na escola com o Arnaldo, um menino feio e sem graça. Na hora da quadrilha ficou parada, sem saber se por vergonha ou vontade de protestar. Ainda bem que na foto fica tudo parado mesmo, ninguém vai perceber, disseram, tentando amenizar o desconsolo da situação, afinal o vestido era tão bonito... E o que espera mesmo é que ele cumpra sua função, se esvoaçando pra cá e pra lá, pula fogueira ioiô, pula fogueira iaiá.
Uma gordinha prende um pedaço de bombril na ponta de uma corrente de ferro, coloca fogo, gira com toda força que seus bracinhos roliços conseguem, fica vermelha. Faíscas brilhantes começam a disparar por todos os lados. Os cachorros se assustam com grandes olhos arregalados. Coitados. Enfiam o rabo entre as pernas e se metem para dentro de suas casinhas, achando que ia sobrar para eles.
Podia tentar, sim, colorir seu histórico de festas juninas sem nada de gostosamente catastrófico e espetacular com a morte inventada da velhinha que vendia pamonhas por um assassino que, bem... Hum... Assassinava somente velhinhas que vendiam pamonhas, a aparição de um clérigo safado, um porre de quentão das beatas cajazeiras do bairro, mas achou melhor admitir que festas juninas são melhores por causa da comida, que das lembranças. E seu relato acaba assim, como um filme francês, sem avisar que vai acabar... LETREIROS SOBEM.
